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https://theintercept.com/2020/04/14/coronavirus-igrejas-evangelicas/

O MUNDO EVANGÉLICO precisar estar no centro do debate público e da epidemia do coronavírus no Brasil. Os evangélicos relativizam mais a gravidade da covid-19 e aprovam mais o governo Bolsonaro do que a média da população, conforme uma pesquisa recente do Datafolha. Esse segmento religioso deve superar o católico nos próximos anos, segundo estimativas do IBGE.

O maior desafio desse debate sobre religião e política talvez seja apontar os efeitos perversos causados pela ganância de alguns pastores sem que isso caia na narrativa generalizante e preconceituosa que demoniza todo um universo evangélico, que é plural e que tem suas próprias disputas políticas internas.

Nos últimos dias, pastores como Edir Macedo e Silas Malafaia têm feito um grande desserviço ao combate da epidemia, colocando-se contra o isolamento social e temendo o esvaziamento das igrejas, que é fonte de arrecadação de dízimo e também de formação de coesão social. Mais do que isso, multiplicam-se memes e vídeos no WhatsApp de pastores charlatões, dizendo que quem tem fé está imune, que a epidemia é coisa de satã, uma vingança divina. Também há aqueles que oferecem receitas de cura.

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Para além de sua base, Malafaia e sua trupe da bancada evangélica têm feito lobby com Bolsonaro, que acena cada vez mais para esse setor, violando constantemente os dispositivos constitucionais do estado laico. O presidente inclusive decretou que as igrejas não deveriam ser fechadas, classificando-as como um serviço essencial.

Bolsonaro se conecta com os crentes de forma muito potente quando diz, no Programa do Ratinho, que a igreja às vezes é a única coisa que as pessoas têm. Ele também pediu jejum nacional para combater o vírus com a fé. Em grupos bolsonaristas mais fanáticos do WhatsApp, Bolsonaro aparece em memes como salvador não apenas do Brasil, mas da humanidade. Tudo isso enquanto nega, desafia e deturpa a ciência em um dos momentos mais crítico da história do país.

A conexão com o crente é fundamental para Bolsonaro se manter no poder. Enquanto ele conseguir isso, sua base será fortalecida e, provavelmente, maior. As igrejas evangélicas, neste momento de crise, se colocam como uma alternativa para as populações mais vulneráveis, oferecendo tanto conforto emocional quanto ajuda assistencial.

Nos últimos dias, coletivos e ONGs têm distribuído cestas básicas em bairros periféricos no Brasil todo. Mas dificilmente chegam perto da operação de guerra, totalmente espetacularizada por meio de imagens de ajuda humanitária, montada pela Igreja Universal. Eles marcam presença e se vendem como aqueles que estariam, de fato, atuando na base social. Quanto maior a crise, mais as pessoas precisam da Igreja e mais se alinham a Bolsonaro.

Por outro lado, como a pesquisadora Ana Carolina Evangelista, do Instituto de Estudos da Religião (Iser) e o pastor Fábio Bezerril pontuaram, é preciso romper com a ideia que as grandes igrejas mercenárias e os pastores como Silas Malafaia e Edir Macedo representam o mundo evangélico. O próprio Fábio é, assim como muitos outros, um religioso de esquerda que tem dito para os crentes – em cultos pelos celulares e mensagens via WhatsApp – que a ciência é uma dádiva de Deus e que, portanto, deveria ser seguida.

Com isso, quero chamar atenção para o fato que existe uma racionalidade muito mais organizada no mundo das igrejas evangélicas do que o senso comum preconceituoso quer imaginar. Um mundo para além dos pastores charlatões e do fanatismo que louva Bolsonaro.

Como ressaltou Evangelista, os números do Datafolha mostram que, no que concerne ao combate ao coronavírus, a diferença entre evangélicos e a população geral não chega a ser significativa em vários critérios. Por outro lado, a pesquisadora destaca que a diferença mais relevante entre os dois grupos é a de apoio a Bolsonaro. Isso vai ao encontro, segundo ela, a uma tendência recente de bolsonarização da base popular durante a crise do coronavírus.

Aprovação de Bolsonaro cresce

A análise de Evangelista encontra eco nos dados etnográficos preliminares que eu e Lucia Scalco estamos levantando em uma periferia de Porto Alegre. Encontramos mais adesão à Bolsonaro do que decepção.

Preocupadas com a repercussão do coronavírus entre interlocutores que acompanhamos por mais de uma década, decidimos retomar alguns pontos de investigação entre nossas redes. Nossas trocas estão apenas começando e, por isso, nada aqui tem caráter conclusivo. Tampouco é possível generalizar quantitativamente. Mas começamos a investigar algumas possíveis tendências e lançar hipóteses no debate público, especialmente aquelas que podem trazer dados indigestos. Há algo que nos surpreendeu: uma ambivalência entre a compreensão da importância do isolamento social e, ao mesmo tempo, o reconhecimento da impossibilidade de parar de trabalhar. É aí que Bolsonaro passa a ser aprovado.

Esse fato, em grande medida, pode estar relacionado à mediação das igrejas evangélicas, que têm tido maior penetração em muitas comunidades e vêm sendo um agente central durante a crise do coronavírus.

A velha polarização entre as figuras do “trabalhador e/ou empreendedor” e do “vagabundo” ressurgiu. Temos percebido, ainda de forma incipiente, aparecer uma disputa entre aqueles que ganham bolsa família e veem com esperança a possibilidade de mudar de vida com até R$ 1.200,00 da renda básica emergencial. Esse é um segmento que está sonhando, fazendo planos e até abandonando a tristeza com o horizonte do pagamento.

Mas existem muitas pessoas que não sabem se podem ganhar o benefício, como os pequenos comerciantes, e pensam que a ajuda financeira reforçará uma “injustiça” entre aqueles que querem trabalhar. Muitos desse grupo acham que parar de trabalhar é injusto e inviável, mas não são negacionistas da pandemia. E são as igrejas – algumas delas inclusive neopentecostais estimuladoras do empreendedorismo – que irão acolher esse sujeito, conscientizando (ou não) sobre o distanciamento e reforçando a necessidade trabalhar.

É nesse sentido que Bolsonaro aparece, até mesmo entre alguns de interlocutores que não votaram nele, como alguém que está acertando na condução da crise e que se conecta com as demandas populares. É claro que essa realidade pode mudar completamente quando as mortes começarem a entrar nos lares desses trabalhadores que nem sequer água tratada têm.

Ao que tudo indica, o cenário atual pode ser favorável a Bolsonaro e a sua penetração nos grupos populares. Isso ocorre por meio de uma postura que fala para “o trabalhador brasileiro” nos pronunciamentos nacionais. Sabemos que isso é falso, porque, na prática, seu governo é antipovo. Mas se queremos fazer oposição de nada adianta fechar os olhos e acreditar que Bolsonaro se autodestruirá por meio de sua própria estupidez, especialmente em meio à pandemia.

As pessoas recorrem a várias fontes de informação e navegam entre elas. A televisão e os jornais alertam sobre a gravidade do coronavírus. O meme diz que o vírus é “chinês” e veio para dominar o mundo. Na TV, o discurso de Bolsonaro relativiza a necessidade de isolamento social que muitas pessoas consideram ser um extremismo que não é viável para suas necessidades de sobrevivência. As igrejas, por sua vez, agem no limite entre a promessa da salvação do vírus satânico e a provisão de comida e remédios.

Hoje, qualquer medida de combate ao coronavírus terá que se conectar com a fé e as demandas populares. Não é razoável tachar como ignorantes os evangélicos desse grupo e desprezar o setor que mais cresce no Brasil. É uma realidade que se impõem cada vez mais no país e para a qual não se pode fechar os olhos.

Se a ciência é a arma que usamos para combater o coronavírus, não é suficiente — ou mesmo eficaz — impô-la de cima para baixo a um segmento que não consegue aderir totalmente a esse discurso de imediato. Por isso, nunca foi tão importante disputar social e politicamente o mundo evangélico. Nunca foi tão importante que cientistas promovam debates e ações junto a religiosos para criar maior conscientização da população de que o distanciamento de hoje é a vida de amanhã.

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